Eu Sou a Pedra



"Tinha uma pedra no meio do caminho" - Drummond

Eu sou uma pedra, e agora é tão fácil admiti-lo... Adjetivo estranho para alguém se encaixar. Não pássaro, borboleta ou brisa. Pássaros são livres, borboletas lindas, e a brisa é leve. E todos são tão leves que voam, flutuam, ou talvez seja o próprio vento.
Sou uma pedra: Comum, incômoda e pesada, resumindo: sou um incômodo peso comum, ou como queiram.
E ‘no meio do caminho tinha uma pedra’...(?) Como ela foi parar ali? Eu tenho uma hipótese:
Suponhamos que ela precipitou-se do lugar mais alto que pôde chegar. Coitada. Esqueceu por acaso por alguma fração de tempo que era pedra, que poderia voar. Imaginem! Pedras nunca voam. Pedras caem! Ou então ela nem soubesse da sua condição de rocha. Por acaso fizeram-na acreditar que era um pássaro, uma borboleta ou brisa sabe-se lá, essas coisinhas poéticas? A patética pedra se lançou do seu posto e caiu em algum chão por aí, e durante a queda acreditava que era um vôo. Tão livre e leve... Sensação indecifrável, tipo extase puro que talvez não façam mais a mínima diferença para os que são habituados a voar. Mas para ela fez diferença sim. Aliás, fez A difença.
É lógico que o encontro entre a pedra e o chão foi inevitável, eu vos pouparei do lamentável estado da mesma. Basta que fiquem sabendo que ela, apesar dos danos irreparáveis sofridos, incrivelmente não se arrependeu de ter se lançado ao ar. Nada nunca vai ser comparado ao êxtase sentido em seu única precipitação. Ela nunca mais cairá, não porque não queira, mas porque obviamente do chão não se passa.
Embora as pedras não tenham a felicidade de voar, elas encontram maior felicidade durante a queda.

Ao som de Cannonball – Damien Rice

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